terça-feira, 16 de outubro de 2012

UM SIMPLES "PSIU"




QUANDO TUDO ERA MAGIA


pode ser salvação, levar às lágrimas.

QUANDO TUDO ERA MAGIA
 A tua simplicidade me encanta e comove.



QUANDO TUDO ERA MAGIA

A minha lavoura está ressequida. A chuva abundante e generosa de outrora não irriga mais a minha inspiração. Sinto saudade do tempo mágico quando eu escrevia coisas como isto:


UM SIMPLES “PSIU”


O que significa um “psiu” para você? Provavelmente, nada mais que um “psiu”.
O poeta se vale de rimas e palavras que, estrategicamente, colocadas num texto se tornam arte, emocionam e causam enlevo. O músico usa melodia, harmonia e ritmo para encantar plateias e despertar sentimentos e paixões. Todo artista se vale de instrumentos para se expressar.
Você precisa de nada mais que um “psiu”. Um simples e onomatopaico “psiu”.
 A tua simplicidade me encanta e me comove. Ela denota a grandeza da tua alma. A tua arte não está no verbo, no requinte; está no coração. Não precisas de grandes obras. Um simples “psiu” pode ser música, poesia, ressurreição. Pode ser um ato de amor, pode ser salvação, levar às lágrimas. Pode levantar quem está prostrado, aniquilar preconceitos.
Para perceber a beleza das coisas pequenas do mundo que nos rodeia precisamos tornar-nos pequenos, desarmar o nosso espírito e educar nossa alma para que se torne sensível. A brutalidade e o pedantismo são a perdição do mundo. As grandes obras nascem na simplicidade.
Texto enigmático, não é? Decifrá-lo? Somente a Cláudia!



domingo, 7 de outubro de 2012

SE EU AMASSE MUITO A MINHA NAMORADA




SE EU AMASSE A MINHA NAMORADA E ELA A MIM





Sobre um banco duas garrafas de conteúdo tinto e seco.

Pelas ruas, sem rumo, passos em descompasso.


De repente, lá em cima, uma luz na janela.

Duas garrafas vazias sobre a mesa.

A saideira? Você pergunta erguendo o copo ainda pela metade.




 SE EU AMASSE A MINHA NAMORADA



Se eu amasse muito a minha namorada e ela, também, a mim jamais deixaria que voltasse sozinha de madrugada.
Gastaria um litro de gasolina ou em noite enluarada, voltando, contaríamos as estrelas. Eu escolheria uma e você outra para dar de presente.
Pelas ruas, sem rumo, passos em descompasso. Numa das mãos o vinho, a outra de mãos dadas ou num abraço, um beijo carinhoso na face molhada, orvalhada.
 Ainda, é madrugada na praça vazia da cidade. Sobre um banco, duas garrafas de conteúdo tinto e seco.
 Trabalho?  Faculdade?  Ora, ninguém é de ferro, diacho!
Embriaguez, aos poucos, evidente.
Conversas, brincadeiras, risadas já quase gargalhadas.
- Mais baaaixo!!!  Suplico.
De repente, lá em cima, uma luz na janela.
- Vagabundos!!! Xinga a voz de um homem. E a mulher:
- Cadela!!!
Fuga apressada. Desordenada.
Passos trôpegos, desconcertantes, bêbados.
Mais risadas. Porém, agora, contidas, nasais, abafadas.
Adiante, já longe da área conflitada, um beijo apaixonado.
Enfim, em casa, cansados e ofegantes.
- A saideira? Você pergunta erguendo o copo ainda pela metade.
Último conteúdo tinto e seco.
 Despertador: desativado.
Duas garrafas vazias sobre a mesa.
Dois corpos entrelaçados no chão transformado em leito.
Embriaguez de sexo e vinho.
Paz, relax, sem dor, sem pecado, sem culpa no peito.
Nada no mundo precisa mudar.
Tudo está perfeito.
Se eu amasse muito a minha namorada jamais deixaria que ela voltasse sozinha de madrugada. Compreender este texto em toda sua dimensão, somente a Cláudia.




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS BOIS DO REMO





A VERDADEIRA HISTORIA DOS BOIS DO REMO




Saímos no domingo, bem cedinho, com nossos cavalos


Djoanin e esposa.

Nos fundos o paiol





A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS BOIS DO REMO



Certo dia, o Djoanin veio visitar-me para reclamar da história que contei sobre os bois fujões do Remo. Disse que era uma história bonita, mas tudo mentira.
- Então você está me chamando de mentiroso? Perguntei.
- Ou tu ou quem te contou a história. Mas então, se a minha história é uma mentira como foi que tudo aconteceu?
- Pra começar, não eram dois bois. Eram cinco! Um mais brabo que o outro. Fugiram numa sexta feira, antes da noite, e ninguém mais os viu. No sábado procuraram por tudo mas nada encontraram. E outra coisa, essa história do Gabriel também é pura mentira. Eu conheci o Gabriel. Sei que caçou muitos bois por aí, mas dessa vez ele não participou.
- Mas então, quem pegou os bois?
- Vou te contar. Foi o meu irmão Gambon e eu. Saímos no domingo, bem cedinho, com nossos cavalos. Levamos os laços e nada mais. Soubemos que lá em Santo Antônio de Castro o povo estava apavorado com uns bichos selvagens que apareceram no mato. Desconfiamos que esses bichos fossem os bois fujões.
 Logo que entramos no mato, vimos as pegadas dos bois. O Gambon preparou o laço e na primeira atirada já pegou um. Amarramo-lo e fomos atrás dos outros. Então veio um em nossa direção. Arremessei o laço e peguei aquele também. Depois, eu peguei mais um e o Gambon o outro. Daí o Remo veio pegar os bois com um caminhão boiadeiro.
- Mas escuta Djoanim, se não me engano você falou de cinco bois. O que aconteceu com o outro?
 Aí, o Djoanim deu uma tossida, pegou um palheiro que estava atrás da orelha, pensou um pouco, fez uma pose de importante e falou:
- Bem, esse era o mais brabo e nós o pegamos a muque. Eu segurei o bicho pelo rabo e o Gambon pelos chifres. Daí contei até três e ao mesmo tempo damos um golpe seco no bicho. O animal caiu esticado no chão. O Gambon deu um golpe tão forte que desnucou o boi. Por sorte eu tinha comigo a faca e sangrei o bicho ai mesmo.
Esta é a verdadeira história. Acho que tu precisa cuidar um pouco mais com esse pessoal que conta as histórias pra ti. Muitas vezes, contam histórias mentirosas só para aparecer no jornal. 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

SIMBOLOS



SÍMBOLOS


Mais importante símbolo do Cristianismo
Letícia recebendo o sacramento do Crisma
foto de  Augusto Käfer

Os doze crismandos, catequista Rita e Padre José Inácio
Foto de Augusto Käfer


SIMBOLOS


Os símbolos são estereótipos com os quais queremos representar algum valor além da matéria. Assim, clubes, associações, famílias, nações, igrejas, marcas comerciais e outras  usam símbolos para se identificar. A Cruz é o principal símbolo da Igreja Católica mas muitos outros fazem parte do seu ritual: figuras de santos, velas, vestimentas, ritos e outros.
Quero, hoje, me referir especialmente ao ritual do Crisma. Há pouco, doze jovens foram confirmados aqui na nossa comunidade. Uma vez, o bispo vinha crismar os nossos filhos. Desta vez, veio um padre. Não discuto a validade do sacramento ministrado pelo padre. Isso é uma questão de fé religiosa. Falo do símbolo.
 A nossa comunidade se preparou, com esmero, para o evento. Muitas pessoas se empenharam: liturgia, cânticos, ornamentação, limpeza.  Mas o bispo não veio. A catequista se dedicou durante meses preparando os doze adolescentes. Mas o bispo não veio. Veio um padre. Mesmo assim, foi um momento sublime que, certamente, vai marcar a vida destes doze adolescentes. A Letícia, representando a turma, escreveu um lindo texto para homenagear a catequista:

Catequista Rita!
Quando paramos para pensar na vida, são pessoas como você que nos mostram o quanto é importante sonhar sem esquecer a realidade. Que lá fora existe um mundo e nós fazemos parte dele. São pessoas como você que nos obrigam a dizer: "Obrigada por existir e, de alguma forma, fazer parte de nossas vidas"!
É tempo de nascer para a vida, para os sonhos e para os outros. É tempo de celebrar os encontros, as conquistas e as amizades. É tempo de refletir sobre o passado, sobre o futuro e sobre o presente.
Há pessoas que querem ser bonitas para chamar atenção, outras desejam a inteligência pra serem admiradas. Mas há algumas que procuram cultivar a alma e os sentimentos; essas alcançam o carinho de todos, porque além de belas e inteligentes tornam-se realmente pessoas. Você Rita é uma dessas pessoas!
Em nossos encontros você sempre nos falou sobre as sementes que precisam ser semeadas com paz e amor, e assim, podendo gerar o alimento que precisamos para viver. Viver com alegria, coragem e determinação para seguir adiante. Viver o presente com sabedoria e plenitude para que o ontem seja um sonho de felicidade e cada amanhã uma visão de esperança. No envelope que iremos lhe entregar consta o nome das 12 sementes que você lançou nessa caminhada.
Agradecemos pela compreensão, paciência, dedicação e carinho que você teve por nós durante nossos encontros. Esperamos que estas sementes se fortaleçam e se tornem verdadeiros cristãos em Deus, pois foi isso que você nos ensinou.
A Letícia é filha da professora Flavia e de Tarcísio Royer. A pesar da idade, escreve muito bem como mostrou na homenagem que escreveu para a catequista.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

LOJA CHEGA MAIS

CHEGA MAIS










CHEGA MAIS


Já faz quatro anos que escrevo esta coluna. Todas as semanas, chego até você para comungar pensamentos, impressões, anseios, notícias, emoções e sentimentos.  Enfim, desnudo minha alma para compartilha-la com vocês. Nos meus textos, procuro mesclar informação, humor, cultura, arte e emoção.
 São quatro anos de aprendizado. Melhorei meu texto, criei um estilo próprio e hoje, sei que a minha coluna tem seu espaço consolidado. O depoimento de muitos leitores me dá esta certeza quando dizem que esperam o jornal para lerem a minha coluna. Nada mais gratificante para quem escreve do que saber que está sendo lido.
A partir desta edição, inicio uma nova etapa. Duas moças empreendedoras, acreditando no potencial de divulgação desta coluna, estarão me patrocinando.
 A Mirna e a Marcia sabem da importância da publicidade.  Sabem que precisam divulgar o seu empreendimento. Se as pessoas não soubessem, como iriam comprar na nova loja “CHEGA MAIS”?
 Sabiamente, há um ditado que diz: “A propaganda é a alma do negócio”. Com criatividade, competência e bom gosto utilizam as mais variadas formas para divulgarem sua loja. Assim, por exemplo, ouvi a Marcia brincar com uma cliente quando lhe recomendou que saísse pela cidade balançando a sacola da loja para que todos vissem onde tinha comprado.
 Obrigado por acreditarem no potencial de divulgação deste espaço. Ao me patrocinarem estão valorizando esta coluna e contribuindo para a cultura do município.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

OS BOIS FUJÕES DO REMO





OS BOIS FUJÕES DO REMO


De tardezinha, o ônibus parou na frente da nossa casa



 E Tia Clara desembarcou.
 Eram dois bois enormes. 

 Gabriel, com seu rifle, matou os dois com um só tiro.




OS BOIS FUJÕES


De tardezinha, o ônibus parou na frente da nossa casa e a Tia Clara desembarcou. Era o aniversario de papai, data que ela jamais esquecia. Saímos correndo para recebê-la. Papai não gostava dela porque ela se metia nas coisas que não lhe diziam respeito. Mas nós a adorávamos. Sempre nos trazia presentes da cidade.
Quando entrou, foi logo cumprimentar papai e, de presente de aniversário, lhe deu uma lima triangular para afiar o serrote.
 Antes de dormir, combinamos que, no dia seguinte, iríamos apanhar bergamotas numa bergamoteira velha lá no morro, no meio da roça.
Depois do café, a Tia, meu irmão mais novo e eu saímos para pegar as bergamotas. Meu pai aconselhou que a tia não fosse, pois mancava devido à sequela de um tombo de bicicleta. Antes de sairmos de casa, mamãe lembrou-se dos bois que tinham fugido do açougue do Remo. Ficou preocupada, pois se falava que eram brabos. Mas papai nos tranquilizou dizendo que o açougue ficava “Lá Fora” e, certamente, os bois não teriam fugido para cá.
Na subida do morro Tia Clara se convenceu que papai tinha razão. Desistiu de nos acompanhar e que fôssemos sozinhos apanhar as bergamotas.
Quando chegamos perto da bergamoteira ouvimos um berro atrás de nós. Eram os bois fujões do Remo. Por sorte estávamos perto, e quando iam nos alcançar, já estávamos a salvo em cima da árvore. Eram dois bois enormes. Berravam, mugiam e cavavam com as patas dianteiras.
E agora, o que fazer? Pelo menos aqui no alto não corríamos riscos. Então, meu irmão disse que precisava fazer pipi. Falei para fazer daí mesmo.
- Vou “mijar” em cima do boi, disse.
 Tomou posição num galho e mirou bem na fuça. Quando o animal sentiu o gosto salgado da urina, levantou a cabeça e pôs os dentes a mostra. Deu um berro e saiu correndo, dando coices no ar, simultaneamente, com as duas patas traseiras. O outro, não sabendo o que acontecera, saiu correndo também.
Foi o que nos salvou. Descemos, e numa corrida só, fomos até em casa.
   No dia seguinte, soubemos que o Gabriel, com seu rifle, matou os dois com um só tiro. A bala atravessou o crânio do primeiro e ficou alojada na cabeça do outro. Estavam lá em Coblens refugiados num mato. O Remo, o Gambon, o Artêmio, o Djoanim, o Rodrigues, o Lauro e mais alguns homens corajosos acompanharam o Gabriel na caçada.
Quando a Tia embarcou no ônibus lamentou não poder levar para casa um saco cheio de bergamotas deliciosas. Porém deu graças a Deus por ter desistido de nos acompanhar.


  
   



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

AKAHOLA

AKAHOLA 
A paz aviltada



 partiu, com sua amada, em busca de um novo lugar 





 Akahola nasceu num vale verdejante cercado por altas montanhas


AKAHOLA

 

 

Akahola nasceu num vale verdejante cercado por altas montanhas que no inverno se vestiam de um branco intenso. Quando cresceu, tornou-se um homem forte, saudável e generoso. Conheceu uma linda jovem e a escolheu para sua companheira. No entanto, a caça, outrora abundante, se tornara escassa. Havia gente demais para o tamanho do vale. Por isso partiu, com sua amada, em busca de um lugar para si. Após dias de caminhada encontrou uma caverna desabitada e a adotou para seu abrigo. Ajudado pela companheira fez dela um lar aconchegante e confortável. Havia caça em abundância, e um manto tênue de paz pairava sobre o lar de Akahola.

Agora já dois filhos enchiam de alegria o coração do casal. Tudo era perfeito e maravilhoso até que dois homens o atacaram para lhe tomar o abrigo e a companheira. A paz fora ferida mortalmente pela ganância e pela inveja dos invasores.

Estamos vivendo uma época em que a paz está ameaçada. Nas comunidades, grandes ou pequenas, os ânimos se acirram. Muitas vezes, o entendimento precisa ceder seu espaço para a discórdia, o bom senso para a ignorância e o equilíbrio para a insensatez. O caminho que convergia para o mesmo destino agora se abre numa bifurcação. Os protagonistas desta situação tentam sorrir o tempo todo, mas, por vezes, não conseguem esconder o ódio que os consome.  

Akahola foi vítima da inveja e da ganância. Por aqui os adversários se digladiam com ofensas pessoais e agressões, muitas vezes, movidos pelo interesse pessoal de garantir um lugar sob a sombra generosa do poder público.

Através desta coluna faço um apelo pela paz. Afinal, somos todos brasileiros. Que a política não ponha abaixo a harmonia entre irmãos dentro das nossas comunidades, muitas vezes, conseguida a duras penas.