domingo, 15 de maio de 2022

LEDO ENGANO



 

 

 

LEDO ENGANO

 

Ele era poderoso. Homem rico e influente na política da república.

 Então houve um escândalo. O sujeito matou a própria esposa. O processo se estendeu por um longo tempo. Muitas diligências e Investigações. Promotores, advogados, evidências e provas. O fato ganhou notoriedade nacional. Houve debates na imprensa e todos acompanhavam o caso.

 Os promotores conseguiram reunir provas e evidências irrefutáveis. Ninguém mais duvidava da culpa do réu. Então veio a sentença:

- Condenado a 30 anos de prisão e perda dos direitos políticos.

O povo respirou aliviado.

Finalmente um graúdo na prisão! A justiça, agora, valia para todos. Um homem rico e poderoso estava preso.

O povo foi para as ruas festejar. Orgulhosos, portavam a bandeira e as cores da república. Num grande cartaz lia-se:

- “AINDA HÁ JUÍZES NA REPÚBLICA”.

O cartaz fazia alusão a famosa frase do Moleiro de Sans-Souci, imortalizada por François Andrieux: “AINDA HÁ JUÍZES EM BERLIM”.

A história conta que um oleiro era proprietário de um moinho aonde Frederico II, (Friedrich der Große),  rei da Prússia, pretendia construir seu palácio de verão. O caso foi parar na justiça e o oleiro teve ganho de causa. Então ele teria proferido o ditado que ficou famoso: “AINDA HÁ JUÍZES EM BERLIM”.

 

Mas na república os advogados de defesa não dormiram. Reviraram a constituição, dissecaram leis, vasculharam decretos e jurisprudências em busca de alguma brecha. E acharam:

 De acordo com a peça acusatória, o réu teria cometido o crime no quarto. A defesa encontrou evidências de que não foi no quarto, mas sim na cozinha. Baseados neste fato pediram a anulação do processo.

 O condenado era muito rico e poderoso, e os juízes não eram os de Berlim.

O povo cabisbaixo voltou para casa.

A república viveu breves momentos de eufórica esperança.

LEDO ENGANO.

Espero, um dia, poder contar o final dessa história. Isso se até lá ainda estiver vivo.

Um conto de ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência.

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

O SACRISTÃO LINO


                                                  

 

                                                             O SACRISTÃO LINO

 

 

Ele tinha 20 anos, e trabalhava na casa do padre. Havia aí uma horta, algumas galinhas e até um porco que Lino tinha que tratar três vezes ao dia. Ajudava na limpeza, tirava a poeira dos bancos da igreja, e as vezes, acompanhava o padre em algum enterro. Tudo isso lhe rendia alguns trocados que vinham muito bem pois, como ainda era jovem, gostava de frequentar bailes e festas.

Tudo ia bem até que o velho padre, muito seu amigo, foi transferido para uma nova paróquia. O padre que veio substitui-lo era um jovem cheio de ideias, e que veio, orientado pelo bispo, para mudar um pouco as coisas e tentar trazer de volta muitos fiéis que haviam abandonado a igreja por causa do velho padre.

No primeiro domingo Lino foi chamado para ler a epístola.

- Eu não sei ler, disse Lino.

Então Lino foi demitido pois, disse o novo padre, não admito que meu sacristão seja um analfabeto.

Lino foi para casa muito aborrecido.

Seu pai, nas horas vagas, fazia, sob encomenda, balaios gamelas e vassouras.

 Com o dinheiro da rescisão, Lino comprou toda a produção do pai e montou uma barraquinha. Em pouco tempo, já havia vendido tudo. Então aumentou o leque de produtos. Alugou uma sala, contratou fornecedores, e o negócio ia de vento em popa. E para não me alongar, Lino se tornou um grande empresário com filiais em todo o país.

No dia do seu aniversário, fez uma grande festa. Para homenageá-lo os funcionários lhe entregaram uma placa contando, resumidamente, seus feitos como empresário. Então pediram que lesse o conteúdo da placa.

 Todos ficaram estupefatos quando confessou que não sabia ler. E disseram:

- Mesmo analfabeto o Senhor construiu todo esse império. Imaginem quão grande seria o seu sucesso se fosse um homem letrado. Ao que ele respondeu:

- Se eu soubesse ler seria hoje um simples sacristão.

Nada contra a profissão de sacristão, e não estou fazendo apologia ao analfabetismo.

As vezes a vida precisa dar-nos um empurrãozinho.

É claro que você não deve procurar uma sombra confortável e esperar que a vida resolva seus problemas.

Tenha fé. Nunca se desespere. Através da tua fé o universo irá conspirar ao teu favor.

Na minha vida cometi muitos erros por me apavorar diante de situações adversas. Invariavelmente os resultados sempre foram desastrosos.

 

 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

O VELHO E A GRAVIDES DE DORA

 

 

 

O VELHO E A GRAVIDES DE DORA

 

 

Você faz ideia do que seja o tempo? Para alguns seres vivos um dia é uma vida toda. Usamos os ciclos para a contagem do tempo. Se a terra não girasse como contaríamos os dias, horas minutos e etc.?

Os ciclos são as pulsações do universo. Sem pulsações não haveria vida. Quando o eletrocardiograma não acusa mais pulsações é decretada a morte. Até a matéria, aparentemente inanimada, tem pulsações. Seus átomos estão em constante movimento.

As vezes nos damos conta de que estamos diante de um milagre; o milagre da volta. É quando percebemos que a natureza soberana retoma seu lugar depois de agredida e, aparentemente, subjugada. Aquela gravidez era efetivamente um milagre.

 

Ah o tempo! Afinal, o que importa o tempo? A natureza tem mil caminhos para trilhar, anos e séculos para esperar! Se a prepotência do homem cria obstáculos, com toda a paciência, a natureza os contorna. Sem pressa e sem alarde elege outro caminho. Ela é perfeita e insubjugável. Ela é frágil como uma criança recém-nascida, uma flor desabrochando e ao mesmo tempo, tem o poder aniquilador de um tufão, a força de uma tempestade.   Ela irá retomar a soberania mesmo que para isso tenha que se valer de crueldade. Sofre, calada, os abusos de mil gerações e se vinga de uma só porque somos um tecido único desde o princípio. Quando parece derrotada ressurge vigorosa onde ninguém poderia imaginar. Ela é mestra por excelência. Ainda que nos indique caminhos aparentemente absurdos, seus ensinamentos acabarão prevalecendo.

 

 Diante da gravidez de Dora o Velho ficou um longo tempo ajoelhado em compenetrado silêncio. Queria vivenciar, intensamente, esse momento do qual, talvez, somente ele tinha a exata noção do verdadeiro alcance. Estava diante do improvável, do surpreendente, diante de um milagre.

(Texto extraído do livro “REENCONTRO” pag. 113)